Carção judia aposta no turismo

Carção judia aposta no turismoA presença de uma comunidade judaica na aldeia transmontana de Carção tem merecido a atenção de estudiosos e turistas e poderá passar a constar dos roteiros internacionais do turismo religioso.
A aldeia tem sido procurada por turistas nacionais e estrangeiros e há já uma agência de viagens interessada em promover pacotes turísticos a pensar sobretudo no mercado israelita, disse Paulo Lopes, presidente da Associação Almocreve.
A associação trabalha há oito anos na recolha de objectos, documentos e testemunhos sobre a herança judaica e está a elaborar um roteiro cultural, que inclui um futuro museu judaico.
Segundo explicou, será um museu virtual, em que com recurso às novas tecnologias vai permitir ao público consultar a documentação disponível sobre a comunidade judaica nos últimos séculos.
O museu tem o apoio das autarquias, do Museu de Diáspora de Israel e da Casa Judaica de São Paulo, no Brasil, e ficará na praça central da aldeia com uma mostra também de objectos como um medalhão utilizado para práticas idênticas ao benzer católico.
A importância do legado judaico revela-se no símbolo da Junta de Freguesia de Carção que tem no brasão um candelabro de sete hastes, um dos mais antigos símbolos judaicos.
A configuração da aldeia testemunha também a presença de duas comunidades com a rua do meio a separar os judeus para um lado e os lavradores (os locais) para outro.
Curiosamente, segundo Paulo Lopes, e ao contrário do que aconteceu noutros sítios em que forma relegados para uma rua ou um canto das povoações, em Carção ocuparam a zona mais central o que ainda hoje é visível pelas construções com casas maiores de janelas em arco, na parte judaica, e pequenas habitações com lojas dos animais, na parte dos lavradores.
Na gastronomia ficaram a "rosquilha", um doce típico da Páscoa e a "espigona", um pão sem fermento.
A Almocreve publica anualmente uma revista com o mesmo nome e já impulsionou outras publicações com destaque para o livro que atribui a Carção - a capital do marranismo.
A associação vai elaborar um planfleto em português, francês e inglês para melhor orientar os turistas que visitam a aldeia, mas o seu propósito é, em breve, organizar um roteiro pelos locais e símbolos judaicos.
Paulo Lopes tem já delineado o percurso que passará certamente pela Cruz do Carvalhal, erguida no século XVII junto com uma capela, onde os judeus celebravam os seus rituais disfarçadamente entre símbolos católicos.
Outro local de visita é uma pedra de uma casa em ruínas com cinco símbolos judaicos, em que sobressaem os cruciformes com que exteriorizavam a afirmação do cristianismo, em simultâneo com um leão de Judá.
A praça das Fontes e a igreja da aldeia guardam outros testemunhos, nomeadamente um retábulo das almas com uma peculiar "boca do inferno" em que o tradicional dragão apresenta orelhas, boca e focinho de porco, animal repudiado pelos judeus.
(ES)

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